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O fluxo e outros parâmetros pode ajudar a identificar tendências de fouling e melhorar a operação de sistemas MBR.

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MBR no tratamento de efluentes: como monitorar o fouling

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Uma ETE precisa esperar a perda de desempenho aparecer para descobrir que alguma coisa está mudando?

Em sistemas MBR, essa é uma pergunta especialmente importante.

Os biorreatores com membranas, conhecidos pela sigla MBR, integram o tratamento biológico à separação por membranas. Essa configuração pode oferecer elevada qualidade do efluente e reduzir a necessidade de determinadas unidades convencionais de separação de sólidos. Ao mesmo tempo, acrescenta à operação um desafio conhecido: o fouling das membranas.

Ao longo da operação, substâncias presentes no licor misto podem se acumular sobre a superfície da membrana ou em seus poros. Dependendo das condições do sistema e do mecanismo predominante, esse processo pode aumentar a resistência à filtração, reduzir a permeabilidade, elevar a pressão necessária para manter determinado fluxo e aumentar a necessidade de limpezas e intervenções.

O desafio não está apenas em saber que o fouling existe. Está em perceber como ele está evoluindo.

É justamente nesse ponto que o monitoramento operacional ganha valor. Um dado isolado mostra uma condição em determinado momento. Uma sequência de dados permite observar comportamento. E o histórico, quando interpretado à luz do processo, pode ajudar a transformar sinais operacionais em decisões de engenharia.

Essa lógica está no centro de uma operação de MBR para tratamento de efluentes mais eficiente:

medir → registrar → comparar → interpretar → agir.

Nos últimos anos, pesquisas também começaram a adicionar uma nova camada a essa discussão, utilizando inteligência artificial e modelos preditivos para tentar antecipar fouling e apoiar decisões operacionais.

Mas a própria literatura mais recente mostra que existe uma distância importante entre um modelo que funciona em pesquisa e uma solução autônoma consolidada em uma ETE real.

Por que o fouling exige atenção na operação de sistemas MBR?

Em termos simples, fouling é o acúmulo ou deposição de materiais que prejudicam o desempenho da membrana.

Em sistemas MBR, o fenômeno pode envolver diferentes mecanismos e materiais. A literatura descreve, por exemplo, formação de camada sobre a superfície, bloqueio de poros e participação de materiais orgânicos, inorgânicos e biológicos. Parte do fouling pode ser reversível por procedimentos físicos, enquanto outras frações podem exigir limpeza química ou intervenções mais intensas.

Por isso, fouling não deve ser tratado como um único fenômeno com uma causa universal.

  • características do afluente
  • configuração do MBR
  • tipo e características da membrana
  • condições biológicas
  • fluxo de permeado
  • concentração e características dos sólidos
  • aeração
  • temperatura
  • regime operacional
  • estratégia de limpeza

O resultado prático é que a perda de desempenho pode se manifestar de maneiras diferentes em operações diferentes.

O operador pode perceber alterações na pressão transmembrana, na permeabilidade, no comportamento do fluxo ou na frequência necessária de limpeza.

E esperar que o problema se torne severo para então investigar sua origem tende a reduzir a capacidade de intervenção preventiva.

O que os dados operacionais podem revelar?

Imagine duas situações.

Na primeira, a equipe observa uma pressão transmembrana de determinado valor em um único momento.

Na segunda, consegue visualizar esse mesmo parâmetro durante dias, semanas ou meses, relacionando sua evolução com fluxo de permeado, temperatura, vazão, aeração, características do afluente e histórico de limpezas.

O número é o mesmo. A quantidade de informação disponível para decidir não é.

Esse é um dos princípios mais importantes do monitoramento de ETE: tendências frequentemente oferecem informações que uma leitura pontual não consegue mostrar.

Um estudo de longa duração publicado em Separation and Purification Technology acompanhou um MBR em escala plena utilizado no tratamento de efluente industrial de uma planta química. A operação foi avaliada durante mais de 18 anos.

Nesse caso específico, o monitoramento da pressão transmembrana permitiu identificar um ponto de inflexão no comportamento da TMP utilizado como referência para limpeza química. A estratégia contribuiu para manter a operação do sistema ao longo do período estudado.

O exemplo é relevante não porque o mesmo limite deva ser aplicado a qualquer MBR. Não deve.

O valor utilizado naquele projeto estava associado às características específicas daquele sistema, membrana e operação.

O aprendizado mais amplo está na metodologia: acompanhar comportamento, reconhecer mudança de tendência e relacioná-la a uma ação operacional definida tecnicamente.

Quais parâmetros podem ajudar a acompanhar o desempenho?

Não existe uma lista universal de variáveis que tenha exatamente a mesma relevância para todos os sistemas MBR.

O conjunto adequado depende do projeto, dos objetivos do tratamento, da configuração instalada, do afluente e das condições operacionais.

Ainda assim, alguns parâmetros aparecem com frequência na avaliação de desempenho e fouling.

Pressão transmembrana

A pressão transmembrana, ou TMP, representa a diferença de pressão associada à passagem do líquido pela membrana.

Dependendo do modo de operação, sua evolução ao longo do tempo pode fornecer sinais sobre o aumento da resistência à filtração.

Pesquisas já utilizaram TMP como uma das principais variáveis para acompanhamento de fouling. Um experimento de aproximadamente 450 dias avaliou conjuntamente TMP e permeabilidade e mostrou também uma questão importante: as condições reais, a variabilidade do efluente e o ruído dos instrumentos podem dificultar interpretações simplistas.

Ou seja: medir não significa automaticamente compreender.

Fluxo de permeado

O fluxo indica a quantidade de permeado produzida por área de membrana em determinado intervalo.

A relação entre fluxo e pressão ajuda a compreender o comportamento da filtração.

Uma mudança nesse relacionamento pode ser mais informativa do que olhar para uma das variáveis isoladamente.

Permeabilidade

A permeabilidade relaciona a produção da membrana à força motriz aplicada.

Sua evolução pode fornecer uma perspectiva importante sobre perda ou recuperação de desempenho, especialmente quando condições como temperatura e características do sistema são corretamente consideradas.

Sólidos e condições do licor misto

Dependendo da configuração, a concentração de sólidos, suas características e as substâncias presentes no meio podem influenciar o comportamento das membranas.

Oxigênio dissolvido e aeração

A aeração tem múltiplas funções em MBRs aeróbios e também pode contribuir para o controle da deposição na superfície das membranas por meio do cisalhamento.

Entretanto, maior aeração também representa demanda energética. Por isso, o objetivo não é simplesmente aumentar a intensidade, mas encontrar uma condição operacional adequada ao sistema.

pH e temperatura

Essas variáveis podem interferir tanto no processo biológico quanto nas propriedades do licor e no desempenho do sistema de filtração.

Características do afluente

Mudanças de carga, composição, sólidos, óleos, compostos específicos ou características físico-químicas podem modificar o comportamento da ETE.

Em efluentes industriais, esse ponto pode ser especialmente importante.

O fundamental é não transformar parâmetros em uma checklist genérica.

A pergunta deveria ser: quais variáveis realmente explicam o comportamento deste MBR?

Monitorar não é apenas coletar dados

Uma ETE pode ter sensores, supervisórios, planilhas, históricos e centenas de registros e ainda assim utilizar pouco desse patrimônio de informação.

Isso acontece quando medir vira um fim em si mesmo.

O valor surge quando os dados ajudam a responder perguntas operacionais.

A TMP está aumentando mais rapidamente do que no ciclo anterior? A permeabilidade está se recuperando depois das limpezas? Existe relação entre determinado comportamento e mudanças do afluente? A frequência de limpeza aumentou nos últimos meses? O sistema apresenta o mesmo desempenho com condições semelhantes de carga? Alguma mudança operacional ocorreu antes do início da tendência?

É a comparação histórica que começa a transformar registros em conhecimento sobre a planta.

A literatura também mostra por que essa interpretação precisa ser cuidadosa. No estudo de monitoramento de longo prazo realizado em MBR piloto, variações pequenas de TMP e permeabilidade nem sempre foram detectadas de forma confiável com instrumentos comuns, devido ao ruído e às variações inerentes às condições reais.

Portanto, qualidade dos dados, frequência de medição, calibração, contexto e interpretação técnica importam. Um gráfico não explica sozinho o processo.

Como análises avançadas podem apoiar a operação?

Quando uma planta começa a acumular histórico confiável, torna-se possível avançar para análises mais estruturadas.

Isso pode envolver desde comparações relativamente simples até modelos estatísticos e técnicas mais sofisticadas.

O objetivo pode ser identificar desvios de comportamento, padrões recorrentes, correlações entre variáveis, respostas antes e depois de intervenções, mudanças de tendência, condições associadas ao aumento de fouling e possíveis indicadores antecipados de perda de desempenho.

Essa abordagem é diferente de simplesmente reagir a um alarme.

Em vez de perguntar apenas “o parâmetro ultrapassou o limite?”, a operação passa a investigar “como o comportamento está evoluindo?”.

Essa diferença é relevante porque fenômenos complexos como fouling dificilmente dependem de apenas uma variável.

O desempenho observado pode resultar da interação entre condições hidráulicas, biológicas, características do afluente, membrana, aeração, estratégias de limpeza e outras condições específicas da planta.

É justamente essa complexidade que tem estimulado pesquisas com ferramentas de análise de dados mais avançadas.

O que a Inteligência Artificial já está tentando prever?

Nos últimos anos, inteligência artificial e aprendizado de máquina passaram a ser estudados para diferentes aplicações em sistemas MBR.

Entre elas estão previsão de fouling, acompanhamento de processo, estimativa de variáveis, diagnóstico e apoio a decisões operacionais.

Uma revisão publicada em setembro de 2026 no Journal of Water Process Engineering identificou uma evolução das pesquisas: dos primeiros modelos de redes neurais destinados à previsão de pressão transmembrana até abordagens envolvendo diagnóstico multimodal de fouling, análise de incerteza, conceitos de gêmeos digitais e suporte à tomada de decisão.

Os autores, porém, chamam atenção para limitações importantes para aplicação prática, incluindo falta de bases de dados padronizadas, contextos de validação heterogêneos, pouca avaliação entre plantas diferentes e lacunas na quantificação de incerteza e documentação de implantação.

Outra revisão, publicada em maio de 2026, também destaca o potencial de aprendizado de máquina para prever indicadores como TMP, fluxo de permeado e resistência ao fouling, mas aponta como barreiras a quantidade limitada de estudos em escala plena, a escassez de bases padronizadas e a maturidade ainda inicial de aplicações integradas em plantas operacionais.

A mensagem para uma ETE industrial é importante: IA pode ampliar a capacidade de análise, mas não corrige dados ruins nem substitui conhecimento do processo.

Por que laboratório e operação real são ambientes diferentes?

Essa talvez seja uma das conclusões mais relevantes da literatura recente.

Em 23 de setembro de 2026, uma revisão publicada na Discover Applied Sciences analisou sistematicamente 150 estudos revisados por pares publicados entre 2020 e 2026 sobre controle inteligente de fouling em MBRs.

A análise utilizou, entre outros critérios, níveis de maturidade tecnológica para avaliar a distância entre modelos estudados e aplicações operacionais.

Os autores encontraram que menos de 15% dos estudos analisados demonstraram implementação em escala plena.

E nenhum alcançou operação autônoma sustentada no TRL 9, o nível mais elevado de maturidade considerado na avaliação.

Isso não significa que a tecnologia não funciona.

Significa que prever bem em determinada base de dados é diferente de operar de forma robusta e autônoma uma instalação real.

Uma planta industrial precisa lidar com variação do afluente, falhas e desvios de sensores, manutenção, mudanças de produção, eventos não presentes no histórico, diferentes regimes operacionais, restrições de processo, decisões humanas e requisitos de segurança e confiabilidade.

É justamente na passagem do ambiente controlado para essa complexidade operacional que parte das soluções ainda precisa amadurecer.

A revisão de 150 estudos conclui que o principal desafio já não é apenas elevar a precisão dos modelos, mas transformar essa capacidade preditiva em sistemas robustos, escaláveis e preparados para implantação operacional.

Antes da Inteligência Artificial, vem uma operação bem estruturada

Existe um risco na discussão sobre digitalização do tratamento de efluentes: começar pela ferramenta e esquecer o processo.

Em um sistema MBR, a ordem deveria ser praticamente inversa.

Primeiro, é necessário compreender o processo; as características do efluente; o comportamento do sistema; os parâmetros realmente relevantes; como esses parâmetros serão medidos; como os dados serão registrados e validados; e quais critérios orientarão decisões operacionais.

Depois disso, ferramentas analíticas podem acrescentar novas capacidades.

O estudo do MBR industrial operado por mais de 18 anos é ilustrativo. O controle descrito pelos pesquisadores não dependia de uma inteligência artificial autônoma. Uma estratégia de feedback baseada na observação do comportamento da TMP foi utilizada para orientar o momento das limpezas químicas.

Processo bem compreendido, parâmetro relevante, histórico e critério técnico produziram uma estratégia aplicável àquela operação.

Isso resume uma ideia importante: tecnologia analítica deve apoiar a engenharia, e não tentar substituir a compreensão da engenharia.

Como tornar a operação de um MBR mais orientada por dados?

1. Defina os objetivos de monitoramento

O que precisa ser identificado? Perda de permeabilidade? Aumento de TMP? Mudanças no consumo energético? Alteração da frequência de limpeza? Variações de qualidade do efluente? Sem uma pergunta definida, existe o risco de coletar grande quantidade de dados sem aplicação clara.

2. Identifique as variáveis relevantes para aquele sistema

A seleção deve considerar configuração, membranas, processo biológico, características do afluente, estratégia de operação e problemas já observados.

3. Garanta confiabilidade na medição

Sensor descalibrado, ausência de registros, mudanças de unidade e dados inconsistentes comprometem qualquer análise posterior. Isso vale para uma análise em planilha e ainda mais para modelos preditivos.

4. Construa histórico

Um ponto mostra uma condição. Uma série histórica ajuda a revelar comportamento. Preservar os registros de operação, intervenções, limpezas e eventos anormais permite relacionar desempenho com acontecimentos reais da planta.

5. Crie referências operacionais

Qual é o comportamento esperado depois de uma limpeza? Qual costuma ser a evolução da TMP em condições estáveis? Como a permeabilidade se comporta sob diferentes condições? As respostas ajudam a identificar desvios.

6. Compare variáveis, e não apenas números isolados

Fouling é um fenômeno multivariável. Correlacionar TMP, fluxo, permeabilidade, condições do licor, afluente, temperatura e histórico de intervenções pode trazer uma compreensão mais útil do que analisar cada variável separadamente.

7. Documente as intervenções

Quando uma limpeza foi realizada? Qual procedimento foi utilizado? O desempenho se recuperou? Por quanto tempo? Esse histórico é essencial para avaliar se a estratégia continua funcionando.

8. Revise continuamente os critérios

Uma operação industrial muda. Afluente, produção, equipamentos, membranas e condições de processo podem mudar. Critérios que funcionavam em determinado momento podem precisar ser revistos.

9. Só então avalie camadas analíticas mais avançadas

Quando existem processo compreendido, instrumentação adequada, dados confiáveis e histórico consistente, análises estatísticas, modelos preditivos e outras ferramentas podem ser avaliados com bases mais sólidas. A tendência tecnológica é real. Mas a engenharia continua sendo o fundamento.

Eficiência em MBR começa por entender o comportamento do sistema

O MBR no tratamento de efluentes combina vantagens importantes com uma operação que exige atenção ao comportamento das membranas.

O fouling continua sendo um dos principais desafios associados à tecnologia e pode afetar permeabilidade, pressão, consumo de energia, frequência de limpeza e estabilidade operacional.

Por isso, o acompanhamento não deveria começar apenas quando o desempenho já se deteriorou.

Construir uma operação orientada por dados significa entender quais parâmetros realmente importam, preservar históricos, identificar tendências, relacionar alterações às condições do processo e transformar informação em decisão técnica.

A Inteligência Artificial acrescenta uma perspectiva promissora a esse cenário. Pesquisas já estudam modelos para prever fouling e apoiar operadores, mas os trabalhos mais recentes também mostram que a aplicação em escala plena ainda é muito menos madura do que os resultados obtidos em ambientes experimentais.

Por isso, o caminho para uma operação mais eficiente não começa necessariamente com um algoritmo.

Começa com uma ETE bem dimensionada, processo conhecido, parâmetros adequadamente monitorados e dados confiáveis.

É sobre essa base que análises cada vez mais avançadas podem gerar valor.

Seu sistema MBR apresenta aumento de TMP, perda de permeabilidade, maior frequência de limpeza ou dificuldade para compreender as causas das variações de desempenho?

A GMAR Ambiental atua em tratamento de águas e efluentes, apoiando a avaliação de sistemas, processos operacionais, parâmetros de acompanhamento e oportunidades de melhoria conforme as características reais de cada ETE.

Fale com a equipe da GMAR e avalie tecnicamente o desempenho e as oportunidades de eficiência do seu sistema de tratamento.

Referências

Long-term performance and fouling mitigation in industrial MBR systems: A systematic review of strategies and trade-offs – ScienceDirect

Online monitoring of MBR fouling by transmembrane pressure and permeability over a long-term experiment – ScienceDirect

Membrane Fouling and Control Approaches in Membrane Bioreactor Systems: A Review | Water, Air, & Soil Pollution | Springer Nature Link

Long-term operation of a full-scale membrane bioreactor for industrial wastewater treatment using polyvinyl fluoride hollow fiber membranes: A systematic evaluation during 18-year operation – ScienceDirect

Wastewater Membrane Bioreactors: A Comprehensive Review of Explainable Artificial Intelligence and Digital Twin Applications

AI for membrane bioreactors: Fouling prediction and decision support – ScienceDirect

Review of intelligent fouling control in membrane bioreactors with a systems-level assessment of deployment readiness | Discover Applied Sciences | Springer Nature Link

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