Em agosto de 2026, o Hospital Santa Catarina – Paulista divulgou resultado que sintetiza o estado da arte em eficiência hídrica hospitalar: um sistema de reaproveitamento do rejeito da osmose reversa da hemodiálise que recupera 18.618 litros por dia, mais de 558 mil litros por mês em uma unidade cujo consumo diário era de aproximadamente 28.600 litros.
Segundo a instituição, a redução chegou a 65% no consumo da hemodiálise, sem alteração nos protocolos de segurança do paciente.
O caso importa porque desmonta a premissa mais comum na gestão hospitalar: a de que economizar água significa flexibilizar biossegurança. Não significa. Significa saber exatamente onde a água potável é obrigatória e onde ela está sendo usada por inércia de projeto.
Este artigo mapeia os pontos de consumo de um hospital, delimita o que a regulação sanitária permite e proíbe em matéria de reúso, e apresenta as frentes de intervenção com retorno mensurável — no tom que interessa a diretor técnico, gerente de facilities e coordenador ambiental.
Por que hospital é um caso à parte
Três características tornam o hospital diferente de qualquer indústria ou condomínio em gestão hídrica:
Operação contínua e inelástica. Não há como reduzir turno, parar linha ou postergar processo. O consumo acompanha a taxa de ocupação, e a taxa de ocupação não é variável de gestão de custo.
Predominância de água potável. Em uma planta industrial, boa parte da água pode ser de qualidade inferior à potável. Em um hospital, a maioria dos pontos de uso exige potabilidade — e alguns exigem qualidade muito superior à potável, como o sistema de tratamento e distribuição de água para hemodiálise.
Risco assistencial associado à água. Sistemas prediais de água são vetor documentado de patógenos oportunistas em ambiente hospitalar, incluindo Legionella, micobactérias não tuberculosas e bacilos gram-negativos. Qualquer intervenção que crie reservação adicional, ramal morto ou zona de estagnação precisa ser avaliada sob essa ótica antes de ser avaliada sob a ótica de economia.
A consequência prática é que o projeto de eficiência hídrica hospitalar não pode ser conduzido apenas por engenharia ou apenas por facilities. Ele exige interface formal com o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) desde a concepção — não na etapa de validação.
Onde a água vai em um hospital
Sem mapeamento, qualquer meta de redução é palpite. Os grandes consumidores, na maioria das unidades de médio e grande porte, concentram-se em:
- Climatização (HVAC). Torres de resfriamento respondem por parcela relevante do consumo em hospitais com sistema de água gelada, por conta da evaporação e das purgas para controle de sais.
- Hemodiálise. O tratamento por osmose reversa gera volume expressivo de rejeito (concentrado), historicamente descartado direto no esgoto.
- CME — Central de Material e Esterilização. Termodesinfectoras, autoclaves, geração de vapor e resfriamento de equipamentos.
- Lavanderia. Quando própria, é um dos maiores consumidores isolados, com múltiplos ciclos de enxágue.
- Nutrição e dietética. Pré-lavagem, lavagem de utensílios e higienização de área.
- Sanitários e vestiários. Volume alto pela quantidade de pontos e pela rotatividade.
- Irrigação e limpeza de áreas externas. Consumo integralmente não potável por natureza — e frequentemente atendido com água potável.
- Perdas. Vazamentos não visíveis em redes antigas, especialmente em complexos com ampliações sucessivas.
Essa última linha merece destaque. Em hospitais que cresceram por anexos ao longo de décadas, a rede hidráulica raramente tem cadastro confiável. O primeiro ganho quase sempre está em descobrir onde a água está indo.
O que a regulação sanitária permite — e o que ela não permite
Aqui a precisão é indispensável, porque erro de interpretação em ambiente hospitalar não gera apenas multa: gera risco assistencial e responsabilidade civil.
Padrão de potabilidade. A Portaria GM/MS nº 888/2021 alterou o Anexo XX da Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017 e é a referência nacional de controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano. Um ponto pouco compreendido: a portaria dirige-se aos responsáveis por sistemas de abastecimento e por soluções alternativas coletivas.
Ou seja, um hospital que perfura poço artesiano passa a ser responsável por uma solução alternativa coletiva e assume o conjunto de obrigações de controle, amostragem e registro. Poço reduz tarifa, mas não reduz obrigação — ao contrário, cria uma nova.
Água para hemodiálise. A RDC/Anvisa nº 11/2014 estabelece os requisitos de funcionamento dos serviços de diálise, incluindo padrões de qualidade da água tratada, monitoramento de endotoxinas e exigência de laudos.
A RDC/Anvisa nº 919/2024 trata dos requisitos de projeto do Sistema de Tratamento e Distribuição de Água Tratada para Hemodiálise, aplicando-se a construções novas, ampliações e reformas de serviços existentes. Isso significa que uma obra de recuperação de rejeito que altere o STDATH entra no escopo regulatório de projeto — e precisa ser tratada como tal, não como manutenção.
Onde o reúso não entra. Água de reúso não substitui água potável em pontos de uso assistencial, não entra em preparo de dialisato, não entra em processos de esterilização e não pode ter conexão física com a rede potável.
A Lei nº 14.546/2023, que alterou a Lei do Saneamento Básico, é explícita: rede e reservatório de águas de chuva e águas cinzas devem ser distintos da rede de abastecimento público, com tratamento prévio que assegure uso seguro. Vale registrar que essa mesma lei estimula o reúso — não o obriga para o estabelecimento de saúde.
Efluentes. O lançamento observa a Resolução CONAMA nº 430/2011 e as normas estaduais complementares, e o gerenciamento de resíduos de serviços de saúde segue a RDC/Anvisa nº 222/2018, com reflexo no PGRSS.
Legionella. A ABNT NBR 16824 orienta a gestão de risco de legionelose em sistemas prediais de água. Não existe, hoje, lei federal brasileira que obrigue o monitoramento de Legionella — mas a norma é frequentemente exigida por acreditadoras, seguradoras, contratos e condicionantes locais, e sua observância é o padrão técnico esperado de um hospital. Tratar isso como opcional é decisão de risco, não de custo.
Captação própria. Poço ou captação superficial exige outorga de direito de uso, nos termos da Lei nº 9.433/1997 e da regulação do órgão gestor estadual. Outorga e cobrança pelo uso da água são instrumentos distintos e devem ser avaliados separadamente na análise financeira.
Sete frentes com retorno mensurável
1. Medição setorial e telemetria
Instalar medidores por setor — HVAC, CME, lavanderia, hemodiálise, blocos de internação — e telemetria com alarme de desvio.
É a intervenção de menor custo e a que viabiliza todas as demais, porque converte suspeita em evidência. Sem ela, não há indicador auditável para acreditação nem base para meta.
2. Recuperação do rejeito de osmose reversa
A frente com melhor relação impacto/investimento em unidades com hemodiálise. O concentrado da osmose, embora inadequado para uso assistencial, tem qualidade suficiente para aplicações técnicas.
No caso do Hospital Santa Catarina – Paulista, o sistema realiza um segundo tratamento e devolve parte do volume ao processo, aproveitando o rejeito secundário na limpeza dos próprios filtros.
Em projeto piloto do Instituto CEJAM em hospitais públicos, a água desmineralizada da hemodiálise passou a ser reservada e reutilizada no resfriamento de maquinário da central de esterilização e da central de vácuo, com redução relatada de 35% no consumo mensal — sem impacto nos padrões de biossegurança e controle de infecção, segundo a instituição.
3. Torres de resfriamento: ciclos de concentração
Elevar o número de ciclos de concentração reduz purga e reposição. É intervenção de tratamento químico e automação de condutividade, não de obra civil.
O limite é técnico e sanitário: mais ciclos significam mais sais e maior risco de incrustação e de proliferação microbiológica. Precisa andar junto com o programa de controle de Legionella, nunca à frente dele.
4. Lavanderia
Reúso do efluente dos últimos enxágues nos primeiros ciclos, recuperação de calor e substituição de equipamentos por modelos de menor consumo por quilo de roupa processada.
Se a lavanderia é terceirizada, a alavanca muda de natureza: passa a ser cláusula contratual de indicador de consumo.
5. Baixa vazão e controle de pressão
Arejadores, válvulas temporizadas, bacias de duplo acionamento e válvulas redutoras de pressão nos ramais. É a frente mais rápida de executar.
O Hospital Municipal de Aparecida de Goiânia relatou redução de 20% no consumo mensal entre 2023 e 2025 — de 2.862 para 2.270 m³ — com arejadores, troca de válvulas de descarga e rondas ativas de detecção de vazamento.Atenção sanitária: redução de vazão em pontos assistenciais precisa preservar tempo e eficácia de higienização das mãos.
6. Água de chuva e irrigação
Captação de cobertura com rede não potável independente para irrigação, lavagem de pátios e, quando aprovado, bacias sanitárias de áreas administrativas.
A ABNT NBR 15527 trata do aproveitamento de água de chuva de coberturas para fins não potáveis e a ABNT NBR 16783 de fontes alternativas não potáveis em edificações. Confirme a edição vigente dessas normas no catálogo da ABNT antes de referenciá-las em memorial de projeto.
7. Fonte própria como contingência — e não só como economia
O Hcor informou que, em 2025, cerca de 24 milhões de litros destinados a usos técnicos deixaram de ser demandados da concessionária, com aproximadamente 10% do abastecimento vindo de fonte própria e poço mantido em stand-by para contingência.
O hospital relata redução de 10% no consumo total com seu plano de eficiência hídrica.
O ponto estratégico aqui não é apenas tarifa: é autonomia de abastecimento — que, em hospital, é questão de continuidade assistencial.
Onde não reduzir
Existe uma lista curta e não negociável: nada de reduzir vazão, alterar qualidade ou introduzir fonte alternativa em preparo de dialisato, esterilização, higienização de mãos em área crítica, lavagem de instrumental e qualquer ponto de contato com paciente ou com material que entrará em contato com paciente.
Economia obtida nesses pontos não é economia — é transferência de risco para o paciente.
Montando o business case
O comitê de investimentos de um hospital avalia projeto de eficiência hídrica em quatro blocos:
- Volume evitado (m³/mês), medido antes e depois, com metodologia declarada e por setor;
- Custo evitado: tarifa de água e esgoto, cobrança pelo uso da água quando aplicável, insumos químicos e energia associada ao bombeamento e aquecimento;
- Risco mitigado: exposição a interrupção de abastecimento, a não conformidade em inspeção sanitária e a requisito de acreditação — a sustentabilidade entrou no escopo de acreditação hospitalar internacional, o que torna indicador hídrico item de auditoria e não de marketing;
- CAPEX e OPEX da solução, incluindo membranas, insumos, manutenção e o custo do monitoramento microbiológico adicional que a intervenção cria.
Não anuncie prazo de retorno antes do diagnóstico. Payback em hospital depende de tarifa local, taxa de ocupação, perfil de serviços (unidade com hemodiálise tem curva completamente diferente de uma sem) e do estado da rede existente.
Erros que geram passivo
- Interligar rede não potável à rede potável, ainda que provisoriamente;
- Criar reservação adicional sem avaliar estagnação e risco de biofilme;
- Alterar o sistema de água para hemodiálise sem tratar a intervenção como projeto sujeito à regulação sanitária;
- Perfurar poço sem outorga e sem estruturar o controle de qualidade que a condição de solução alternativa coletiva exige;
- Elevar ciclos de concentração em torres sem programa de controle microbiológico correspondente;
- Executar o projeto sem parecer formal do SCIH.
Hospital é o ambiente onde eficiência hídrica exige mais rigor técnico e é justamente por isso que o ganho disponível é grande: décadas de projeto conservador deixaram água potável fazendo trabalho que não exigia potabilidade.
Mapear, medir e intervir nos pontos técnicos, preservando integralmente os pontos assistenciais, é o caminho que já produziu resultados documentados em instituições brasileiras de referência.
Precisa de diagnóstico hídrico, projeto de reúso e adequação de efluentes para sua unidade de saúde? Fale com a equipe técnica da GMAR Ambiental.
Fontes:
Hospital Santa Catarina reduz em 65% o consumo de água na hemodiálise com sistema inédito de reaproveitamento — Anahp https://www.anahp.com.br/noticias/hospital-santa-catarina-reduz-em-65-o-consumo-de-aguana-hemodialise-com-sistema-inedito-de-reaproveitamento/
Hospital Santa Catarina reduz em 65% o consumo de água na hemodiálise — Medicina S/A https://medicinasa.com.br/reducao-agua-hemodialise/
Plano de eficiência hídrica faz Hcor reduzir consumo de água em 10% — Saúde Business https://www.saudebusiness.com/esg/hcor-reduz-consumo-de-agua-em-10-com-plano-de-eficiencia-hidrica/
Projeto piloto do CEJAM reduz em 35% ao mês consumo de recursos hídricos em hospitais públicos — Instituto CEJAM https://cejam.org.br/noticias/projeto-piloto-do-cejam-reduz-em-35-ao-mes-consumo-de-recursos-hidricos-em-hospitais-publicos
HMAP reduz em 20% o consumo de água com adoção de práticas sustentáveis — Secretaria de Saúde de Aparecida de Goiânia https://saude.aparecida.go.gov.br/hmap-reduz-em-20-o-consumo-de-agua-com-adocao-de-praticas-sustentaveis/
Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021 — Ministério da Saúde / Biblioteca Virtual em Saúde https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2021/prt0888_07_05_2021.html
RDC nº 11, de 13 de março de 2014 (serviços de diálise) — Anvisa / Biblioteca Virtual em Saúde https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2014/rdc0011_13_03_2014.pdf
Presidente sanciona lei que estimula uso racional da água (Lei nº 14.546/2023) — Planalto https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2023/04/presidente-sanciona-lei-que-estimula-uso-racional-da-agua
Texto da Lei nº 14.546, de 4 de abril de 2023 — Câmara dos Deputado https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2023/lei-14546-4-abril-2023-794007-publicacaooriginal-167507-pl.html
Começa a consulta pública sobre revisão tarifária para os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário (Consulta Pública nº 03/2026) — ANA https://www.gov.br/ana/pt-br/assuntos/noticias-e-eventos/noticias-periodo-eleitoral-2026/comeca-a-consulta-publica-sobre-revisao-tarifaria-para-os-servicos-de-abastecimento-de-agua-e-esgotamento-sanitario
Reaproveitamento do concentrado gerado por sistema de tratamento de água por osmose reversa em uma clínica de hemodiálise — SciELO / Engenharia Sanitária e Ambiental https://www.scielo.br/j/esa/a/YX7ZNfN9v4QqDVGPQ6zk8td/
Impacto da gestão do consumo de água no Hospital Estadual Américo Brasiliense — Journal of Brazilian Economics of Health (JBES) https://www.jbes.com.br/index.php/jbes/article/download/181/156/302
Sustentabilidade entra no centro da acreditação hospitalar da JCI — Saúde Business https://www.saudebusiness.com/esg/hcor-reduz-consumo-de-agua-em-10-com-plano-de-eficiencia-hidrica/
Legionella em águas hospitalares e a norma ABNT NBR 16824 — Microambiental https://microambiental.com.br/agua-segura-para-hospitais/a-bacteria-legionella-e-realmente-rara-em-sistemas-de-agua-hospitalares/
Informações sobre a regulamentação para prevenção e controle de Legionella no Brasil — Microambiental https://microambiental.com.br/analises-de-agua/legionella/informacoes-sobre-a-regulamentacao-para-prevencao-e-controle-de-legionella-no-brasil/