Um levantamento divulgado em 22 de julho de 2026 pelo International Council on Mining and Metals (ICMM), em parceria com a equipe de risco hídrico do WWF e o World Resources Institute (WRI), trouxe um número que resume o desafio hídrico do setor mineral: mais de 65% das instalações de mineração e metalurgia ao redor do mundo estão localizadas em áreas classificadas com algum grau de risco hídrico.
O dado é resultado do primeiro conjunto de dados global de água voltado especificamente para mineração e metais. Ele tem servido de base para investidores, governos e comunidades avaliarem onde a atividade mineradora enfrenta maior pressão sobre recursos hídricos e onde a gestão eficiente da água deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar uma condição de operação.
Esse tipo de dado público e comparável muda a forma como o setor discute água.
Não se trata mais de um problema pontual de uma mina específica, mas de um risco estrutural que atinge a maioria das operações minerárias do planeta e que, cada vez mais, entra na análise de risco de investidores e financiadores antes mesmo de um projeto sair do papel.

O paradoxo da mineração brasileira
No Brasil, os números contam uma história um pouco diferente, mas igualmente relevante.
Segundo dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a mineração responde por apenas 1,6% da retirada de água no país e 0,8% do consumo efetivo, uma fatia pequena se comparada à irrigação agrícola ou ao abastecimento urbano.
Em contrapartida, o setor já opera com índices de reúso acima de 85%, um patamar consideravelmente mais alto do que a média de outras atividades industriais.
Esse desempenho não é acidental. Ele resulta diretamente da adoção de tecnologias como circuitos fechados de água, espessadores, empilhamento a seco de rejeitos e reaproveitamento de efluentes industriais, soluções que reduzem a captação de água nova e aumentam a autonomia hídrica das operações.
Quanto maior o nível de reúso interno, menor a dependência de fontes externas e maior a resiliência da mina diante de cenários de escassez ou de restrição de outorga.
Ou seja: o setor que menos retira água do sistema hídrico brasileiro é, paradoxalmente, um dos que mais investem em tecnologia de tratamento e reuso, justamente porque cada mina opera, na prática, como uma ilha hídrica que precisa gerenciar seu próprio ciclo de água com muito mais rigor do que a maioria das indústrias urbanas.
Onde os equipamentos de tratamento entram na operação
Uma mina não gera apenas um tipo de efluente.
Ao longo da cadeia produtiva, do beneficiamento mineral à manutenção de equipamentos pesados, passando pelos alojamentos e áreas administrativas do canteiro, surgem fluxos de água com características muito diferentes entre si e que exigem soluções técnicas específicas.
Nas oficinas de manutenção e nos pátios de lavagem de equipamentos pesados, por exemplo, é comum a geração de efluentes contaminados com óleos e graxas provenientes de vazamentos, lubrificantes e combustíveis.
Esse tipo de efluente não pode ser simplesmente descartado ou lançado junto ao restante do fluxo hídrico da operação: ele precisa passar por sistemas específicos de separação água-óleo (S.A.O) antes de qualquer reúso ou descarte, sob risco de contaminar solo e corpos d’água próximos.

O cenário muda nas áreas de alojamento e vivência dos trabalhadores. Por estarem em regiões remotas, esses locais muitas vezes ficam distantes de qualquer rede pública de esgoto.
O desafio, portanto, é outro: tratar o esgoto sanitário gerado no dia a dia sem depender de infraestrutura municipal, que simplesmente não existe naquele ponto do território.
Aqui entram estações compactas de tratamento de esgoto, dimensionadas para operar de forma autônoma, com estrutura reduzida e instalação rápida. Essas qualidades são especialmente relevantes em canteiros que mudam de escala ou de localização ao longo da vida útil do empreendimento.
Para as águas cinzas, aquelas provenientes de chuveiros, lavanderias e cozinhas dos alojamentos, soluções com desinfecção por radiação ultravioleta permitem o reúso em aplicações não potáveis com segurança, removendo até 99,9% dos patógenos sem depender de grandes volumes de produtos químicos, o que simplifica a logística de operação em áreas remotas.
E há ainda a água de chuva captada nas áreas de pátio e cobertura das instalações administrativas, que pode ser tratada e reaproveitada em processos industriais e de limpeza, reduzindo, mais uma vez, a captação de água nova.
O que muda quando a operação trata a água como ativo, não como passivo
O ponto central que une o dado global do ICMM/WWF/WRI e a realidade brasileira é o seguinte: operações de mineração que tratam a gestão hídrica como parte central da engenharia do projeto, e não como um item de conformidade a ser resolvido depois, tendem a ser mais resilientes a cenários de escassez, menos expostas a restrições de outorga e mais competitivas na atração de investimento, especialmente diante de fundos e financiadores que hoje avaliam risco hídrico como parte do risco financeiro do projeto.
Isso significa, na prática, pensar em tratamento de efluentes não como uma estação isolada, mas como um conjunto de soluções específicas para cada tipo de fluxo gerado pela operação: separação de água oleosa nas oficinas, tratamento compacto de esgoto nos alojamentos, desinfecção de águas cinzas e captação de água pluvial nas áreas administrativas.
Cada um desses fluxos, tratado corretamente, reduz a pressão sobre a captação de água nova e aumenta a margem de segurança operacional da mina diante de um cenário hídrico que, segundo o próprio ICMM, já afeta a maioria das operações do setor no mundo.
Da estatística global à decisão de engenharia
O dado de que 65% das instalações de mineração e metalurgia enfrentam algum grau de risco hídrico não é um alerta abstrato. Ele funciona como um convite para que cada operação avalie, de forma técnica e específica, seus pontos de vulnerabilidade hídrica e quais soluções de tratamento fazem sentido para o seu contexto.
No Brasil, o setor já demonstrou capacidade de operar com índices de reúso acima de 85%. O caminho, portanto, está mapeado; falta apenas o diagnóstico técnico correto para cada operação.
Se a sua operação de mineração ainda trata a gestão de efluentes como um desafio genérico, e não como um conjunto de soluções específicas para cada fluxo gerado, esse é o momento de rever essa estratégia.
A GMAR Ambiental pode te ajudar a mapear os diferentes fluxos de água e efluente da sua operação e apontar as soluções técnicas mais adequadas para cada um deles.
Fontes: BrasilMineral.com.br — “ICMM: Mais de 65% das instalações de mineração e metalurgia têm risco hídrico” (22 de julho de 2026), com dados do ICMM, WWF e World Resources Institute (WRI);
RadarMineração.com.br — “Reúso de água transforma gestão hídrica na mineração brasileira“, com dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).