Um novo estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em parceria com a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos, trouxe um dado que deveria estar no radar de qualquer gestor condominial, industrial ou ambiental do Sudeste: as estiagens na região vão durar mais tempo e serão mais severas, com destaque para a bacia do Paraíba do Sul, um dos principais sistemas de abastecimento do país.
O que o estudo revela
Segundo a pesquisa, as secas na bacia devem ocorrer com menor frequência, mas ganhar força suficiente para durar até o triplo em algumas sub-bacias, com índices de severidade até sete vezes maiores em comparação aos registros históricos da região.
Na porção alta da bacia, em São Paulo, onde operam os reservatórios de Paraibuna e Santa Branca, as estiagens que hoje duram entre oito e nove meses devem se estender por quase dois anos contínuos até o fim do século.
O ponto mais crítico projetado está no sistema de Santa Cecília, em Barra do Piraí (RJ), responsável por transferir a água que abastece grande parte da região metropolitana fluminense.
O recorte é técnico, mas a mensagem prática é direta: a lógica de “seca pontual seguida de recuperação dos reservatórios”, que orientou décadas de planejamento hídrico no Sudeste, está mudando.
O comportamento do clima passa a atingir o abastecimento de forma dupla — afetando tanto o tempo de duração quanto a gravidade da falta de água.

Por que isso já é um problema de gestão, não só de clima
Esse cenário não é uma preocupação distante. Levantamentos recentes do Monitor de Secas, ferramenta mantida pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), já vinham mostrando o Sudeste como a região com maior proporção territorial sob algum grau de seca no país, com estados como o Rio de Janeiro registrando salto expressivo na área afetada em poucos meses.
Some-se a isso o fato de que o Brasil trata pouco mais da metade do esgoto que produz e reutiliza de forma planejada apenas uma fração mínima desse volume — o que mostra o tamanho do potencial ainda não explorado de reúso como estratégia de segurança hídrica.
Para condomínios de médio e alto padrão, esse quadro já aparece na conta de água.
Administradoras e síndicos profissionais em diferentes capitais do país vêm relatando aumento expressivo da participação da conta de água no orçamento condominial, em alguns casos chegando perto de metade das despesas mensais — um patamar que, há poucos anos, seria considerado atípico.
Quando a estiagem se torna estrutural em vez de sazonal, esse custo não recua: ele se acomoda em um novo normal, mais caro.
Para indústrias, mineradoras, hospitais, hotéis e operações de alimentos e bebidas, o impacto é ainda mais direto.
Processos que dependem de água em grande volume — resfriamento, lavagem, diluição, geração de vapor — ficam expostos a um risco duplo: o de escassez física (menos água disponível) e o de escassez regulatória (mais restrição de uso e outorga em períodos críticos).
Reúso e tratamento deixam de ser “opção verde” e viram estratégia de continuidade
É nesse contexto que o reúso de água tratada e o tratamento eficiente de efluentes deixam de ser vistos como iniciativas de sustentabilidade e passam a ser tratados como estratégia de continuidade operacional.
Um condomínio que reutiliza água de reúso para irrigação, lavagem de áreas comuns e descarga em vasos sanitários reduz sua dependência da rede pública exatamente nos momentos em que essa rede está sob mais pressão — e, de quebra, blinda parte do orçamento contra reajustes tarifários motivados por escassez.
O mesmo raciocínio vale para indústrias e operações de mineração: quem trata e reutiliza seu próprio efluente diminui a exposição a outorgas mais restritivas, evita risco de paralisação por falta de água outorgada e ainda ganha argumento concreto para metas ESG que exigem indicadores reais de uso racional de recursos hídricos, não apenas discurso institucional.
O retrato mais recente dos reservatórios reforça o alerta
Esse cenário de longo prazo não surge isolado: ele se soma a dados recentes sobre a situação atual dos reservatórios que abastecem o Sudeste.
O Sistema Cantareira, responsável por abastecer mais de 6 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, vem operando em níveis considerados baixos para a época do ano, o que já levou órgãos reguladores a ajustar volumes de retirada de água em diferentes momentos ao longo de 2026.
Quando o nível de um sistema desse porte fica pressionado, o efeito não fica restrito à capital paulista — ele se espalha pela cadeia de concessionárias, municípios vizinhos e grandes consumidores institucionais, entre eles condomínios, indústrias e redes hospitalares.
Esse é justamente o tipo de contexto em que o Monitor de Secas, mantido pela ANA, ganha relevância prática: ele não mede apenas “se está chovendo pouco”, mas acompanha, mês a mês, como a área sob estiagem se movimenta entre regiões — o que ajuda a entender por que uma bacia pode aliviar em determinado mês e voltar a se agravar logo em seguida.
Para quem planeja investimento em segurança hídrica, esse comportamento oscilante é um argumento a mais para não tratar a questão como algo resolvido assim que os reservatórios sobem um pouco em um mês de chuva mais forte.
Do diagnóstico à ação: o que muda na prática
Entender a gravidade do estudo é só o primeiro passo. Na prática, condomínios e indústrias que querem se antecipar a esse cenário costumam seguir um caminho parecido: primeiro, mapeiam onde a água é usada e em que volume — separando usos que exigem água potável dos que poderiam ser atendidos por água de reúso, como irrigação, lavagem de áreas comuns, resfriamento industrial ou descarga sanitária.
Em seguida, avaliam a viabilidade técnica e financeira de um sistema de tratamento e reúso dimensionado para esse volume, considerando não apenas o investimento inicial, mas a economia recorrente que ele gera ao longo dos anos, sobretudo em cenários de tarifas de água em alta.
Esse tipo de decisão tende a ser mais eficiente quando tomada de forma planejada, e não sob pressão de uma crise já instalada — momento em que as opções técnicas costumam ser mais limitadas e mais caras.
O que muda no planejamento a partir de agora
O estudo da UERJ e da Funceme não é um alerta isolado — ele se soma a um conjunto de sinais que já vinham se acumulando sobre o Sudeste: reservatórios operando em níveis historicamente baixos para a época do ano, avanço da área sob estiagem e pressão crescente sobre o orçamento de quem depende de água tratada.
A leitura correta desse cenário não é entrar em pânico, e sim antecipar decisões: mapear a real dependência hídrica da operação, avaliar a viabilidade técnica de sistemas de tratamento e reúso, e tratar a água como um recurso estratégico, não como uma linha de custo fixo e inevitável.
Se o seu condomínio ou a sua indústria ainda não avaliou o potencial de reúso de água ou a eficiência do sistema de tratamento de efluentes atual, esse é o momento de fazer essa análise — antes que a próxima estiagem prolongada chegue primeiro.
A GMAR Ambiental pode te ajudar a entender o cenário técnico da sua operação e apontar o caminho mais eficiente para reduzir essa dependência.
Fonte: Estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), publicado na Revista Brasileira de Recursos Hídricos (agosto de 2026).